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Local: Bahia, Brazil

12 dezembro, 2005

Sonhos melhores para as afro-descendentes

Por Aline D"Eça

Carolina tem um sonho: ser trançadeira. Tem 11 anos de idade e há quatro ajuda a mãe a vender cocadas para os turistas na Praça da Sé. Pequena e magrinha, carrega uma bacia de alumínio embalada por um filme plástico repleta de redondas cocadas coloridas. “Tem de coco, abacaxi, goiaba e amendoim”. Ao meio dia, o sol forte esquenta o alumínio e a faz suar, mas ela só pára para observar a decoração de Natal. Os olhos brilham, mas ela tem que vender as cocadas. Também deve estar atenta à irmã mais nova, Roberta, 8 anos, que vende fitinhas do Senhor do Bonfim.

As duas não freqüentam a escola há mais de um mês. “Esta época a gente tem que faltar mais. Desde de manhã a rua tá cheia de turista. Aí minha mãe, que é baiana de acarajé, traz a gente pra trabalhar aqui na praça o dia todo”. Carolina repete a 2ª série do ensino fundamental e explica que esse ano a greve prejudicou ainda mais os seus estudos. “Se não tivesse parado, estaria de férias e não perderia tanta aula”.



Foto: Aline D'Eça


Todo dia, antes de voltar para casa no final da tarde, enquanto a mãe desfaz a barraca de acarajé, Carolina gosta de observar o trabalho das trançadeiras. Quando fizer 15 anos, a mãe prometeu que a deixará trançar os cabelos dos turistas, mas enquanto isso treina com nas bonecas suas e das amiguinhas. “Vou ser trançadeira na praça e depois quero ter um salão aqui no Pelourinho”.

Como a maioria das mulheres que trabalham informalmente como vendedoras de fitinhas, trançadeiras ou vendedoras de acarajé no Centro Histórico de Salvador, Carolina é negra. E são elas que, mesmo numa cidade de população predominantemente afro-descendente, recebem os menores salários e são maioria entre os desempregados. Para minimizar esta desigualdade, foi aprovado no último dia 6, pela Câmara Municipal de Salvador, um projeto de lei que cria o Fundo Municipal para o Desenvolvimento Humano e Inclusão Educacional de Mulheres Afro-descendentes, resultado de um convênio entre o Ministério Público estadual e a Prefeitura de Salvador, que entrará em vigor apartir de janeiro de 2006, Ano da Promoção da Igualdade Racial em Salvador.


Destinando recursos para a educação desde a alfabetização até a 8ª série do ensino fundamental, num programa diferenciado, voltado para a cidadania, preparação de alto nível para o mercado de trabalho e reforço dos direitos constitucionais dessas mulheres, o Fundo receberá 2% da receita do Fundo Municipal de Educação, que deve ser usado para o financiamento e implementação de políticas, programas, projetos e ações que propiciem o acesso e a permanência nas escolas das mulheres afro-descendentes que se encontram em situação de vunerabilidade social. Se der certo e não for utilizado em outras finalidades, esse dinheiro possibilitará que crianças como Carolina e sua irmã Roberta possam sonhar com futuro profissional bem melhor que o das trançadeiras...

1 Comments:

Blogger Daniela Leone said...

Gostei da matéria. Parabéns!

9:31 PM  

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