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Local: Bahia, Brazil

09 novembro, 2005

São 1 real


Por Aline D'Eça

Embarcando no bairro da Pituba em um ônibus que faz a linha Duque de Caxias, numa tarde de segunda-feira quente e abafada, algo inédito aconteceu. Não, o veículo na quebrou, nem foi assaltado e nem sequer mudou seu rumo. Passando pela estação que liga a Rodoviária ao Iguatemi, entrou no ônibus, sério e pela porta dianteira, um vendedor de pé-de-moleque. Os passageiros menos atentos nem se deram conta, mas algo de diferente fazia o vendedor. Ele não era um portador de deficiência física pedindo "ajuda pelo amor de Deus", nem alguém menos favorecido suplicando com tom alto e desesperado, às vezes ameaçador, "desculpe atrapalhar a viagem de vocês, mas prefiro pedir do que roubar" ou então vendendo canetas cujas verbas serão revertidas para "um grupo de apoio a ex-drogados em recuperação".

A diferença estava no conteúdo do seu discurso. Não, ele não entoava em tom desesperado, para não dizer apocalíptico, versos de "salvação pela Bíblia". Sua intenção era apenas vender os doces que trazia num pequeno balde e dizia:
"Levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real". A maioria dos passageiros, calados e entretidos em seus universos individuais, nem sequer prestava a atenção, mas o jovem negro e que aparentava uns vinte e poucos anos de idade, que nem sequer disse seu nome, continuava dizendo "Levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real".

Ele não esperava quando uma passageira estendeu a mão para ele, sinalizando que nada queria comprar, mas que apenas desejava apertar sua mão. Meio assustado e sem entender o porquê daquele ato , ele retribuiu o cumprimento. "Parabéns pela concordância verbal", explicou a passageira. O jovem vendedor abriu um sorriso, agradeceu e continuou a entoar, agora com um tom de orgulho em sua voz, "levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real".