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Local: Bahia, Brazil

06 novembro, 2005

O papel da entrevista no JL

Em um artigo para o site português Bons Ventos, o professor de Jornalismo da Unesp/Bauru, Pedro Celso Campos, fala sobre "A Entrevista no Jornalismo Literário Avançado" no seu trabalho do Curso de Jornalismo Literário Avançado, do Programa de Pós-Graduação (Doutorado-Aluno Especial) em Jornalismo, da Escola de Comunicação e Artes-ECA - Universidade de São Paulo – USP

Confira:


A Entrevista no Jornalismo Literário Avançado

Quando a entrevista destina-se ao livro-reportagem, muitas destas técnicas aqui citadas podem ser úteis. Mas algumas são essenciais, destacando-se, como já foi dito, o aspecto da "imersão". Nas histórias de vida, antes de mais nada, é preciso conquistar a simpatia do entrevistado. E isto não se faz com meias-verdades, com mentiras, com falsa identidade, com câmeras ocultas ou com qualquer outro expediente escuso. Pelo contrário, para estabelecer uma boa interação com a fonte, o jornalista deve ser honesto, transparente, amigo, companheiro. Ninguém abre a caixa preta da vida, na sua intimidade mais crua e mais exposta, a uma pessoa não confiável, estranha, maquiavélica.

Por outro lado, o próprio jornalista deve se precaver para não se envolver em situações ilegais. Em depoimento à imprensa, no início deste ano, sobre seu mais recente livro a respeito do traficante Uê, Caco Barcelos contou que estabeleceu algumas normas, segundo as quais não tomaria conhecimento – durante as entrevistas - de fatos criminosos em andamento ou futuros, apenas de fatos passados. Já o cineasta Moreira Salles teve problemas com a lei porque sabia onde sua fonte se refugiara e continuou entrevistando-a para a produção de um filme sem avisar às autoridades. Também é necessário obter, logo de início, um documento assinado em que o entrevistado autoriza a divulgação de texto e imagem a seu respeito, o que poderá livrar o profissional de futuros e caros processos por uso indevido de imagem.

Uma vez conquistada a simpatia do entrevistado, é necessário passar a conviver com ele em seu próprio ambiente. Foi assim que Joseph Mitchell escreveu uma das mais bonitas reportagens, em meados do século XX, contando a história de um boêmio do Greenwich Village, em Nova York, o popular Joe Gould, que estaria escrevendo uma História Oral maior que a Bíblia. Mitchell sempre evitava os lugares-comuns do jornalismo: celebridades, poderosos, "olimpianos" (na expressão de Cremilda Medina). Seus personagens viviam à sombra, anônimos. Suas reportagens eram buriladas anos a fio e foram elas que melhor capturaram o espírito de Nova York entre as décadas de 30 e 60. O primeiro perfil de Joe Gould foi publicado na revista The New Yorker no final de 1942. Em 1964 Joseph Mitchell completaria o perfil de Joe Gould, sete anos após a morte de seu personagem, com o qual conviveu longamente nos bares da cidade até "percebê-lo" nos mínimos detalhes.

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Publicado originalmente no site http://www.bonsventos.com