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Local: Bahia, Brazil

31 outubro, 2005

JL no Cinema


O clássico do Jornalismo Literário, o livro "A Sangue Frio", de Truman Capote, também pode ser conferido em sua versão para o cinema, do diretor Richard Brooks. Confira crítica publicada no site Erotikill (www.erotikill.com.br):


A Sangue Frio
In Cold Blood
Estados Unidos, 1967, 134 minutos

Diretor: Richard Brooks
Elenco: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Paul Stewart, Gerald S. Loughlin, Jeff Corey, John Gallaudet, James Flavin, John Collins, Charles McGraw, Will Geer, James Lantz, John McLiam

“Quem mataria quatro pessoas à sangue-frio por causa de um rádio, um binóculo e quarenta dólares?”, diz o agente Alvin Dewey, responsável pela investigação da odiosa e imoral chacina de toda uma família no interior desolado do estado do Kansas. Após um ano de perseguições são detidos dois ex-presidiários, ainda sob condicional, cujo julgamento e condenação se arrastou por longos anos até o enforcamento, na madrugada de 14 de abril de 1965.

Truman Capote (1924 – 1984), então com 33 anos, escritor de crônicas furibundas para o jornal The New Yorker, colheu relatos, reportagens em pequenos tablóides, entrevistas e acompanhou os dois assassinos responsáveis pela tragédia até a execução; o resultado foi o monumental híbrido jornalísto-literário In Cold Blood (A sangue Frio). Ao lado de outros arautos do jornalismo impressionista – ou new jounalism, como veio a serem conhecidas essas narrativas - (Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe), Capote perpetrou um estilo delicioso, sofisticado, um mix entre jornalismo e literatura que se consagra completamente no livro-reportagem propiciando a personalização de uma informação que se identifica com o "interesse humano” , e que alcança, por sua vez, um resultado próximo da crítica social e da opinião velada, ou seja, flagrantes e incidentes da vida ordinária.

Em 1967, Richard Brooks, notório e notável diretor das adaptações cinemáticas de Sweet Byrd of Youth (Doce pássaro da juventude, 1962) e Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de zinco quente, 1958), do dramaturgo Tenensee Williams, se aventura a penetrar nas mentes perturbadas dos dois assassinos, no poderoso In Cold Blood (A sangue frio, 1967), a homônima viagem pelo interior sombrio dos Estados Unidos, que narra, ao mesmo tempo com a distância e frieza de um ‘actors studio’ e a abordagem de dimensão humanitária e trágica do cinema de Dreyer, a tragédia familiar e pessoal dos envolvidos no massacre. Como personagens dostoievskianos – Brooks dirigiu uma adaptação satisfatória dos Irmãos Karamazov, em 1958 – não há explicações ou tentativas de se justificar os crimes; em nenhum momento o diretor se impõe um tom meramente moral ou mesmo vingativo, muito pelo contrário, há um angustiante clima de tragédia que envolve indiscriminadamente todos os personagens de maneira sinuosa, favorecido pelo preto e branco ‘chapado’ da fotografia.

O sufocante passeio edípico pelos tormentos pessoais de Perry Smith, confronta-se com a aparente felicidade pequeno-burguesa da família Clutter, resultando não em um confronto de dimensões sociais ou questionamentos sobre o lado dark da américa mas num legado de estranheza do comportamento humano. In Cold Blood refaz, em tom seco de road movie, os passos relatados pela polícia, o doloroso martírio dos membros da família Clutter, o périplo em fuga dos assassinos, a queda e o final dramático: “Gostaria de pedir perdão, mas para quem?”, murmura um atormentado Perry Smith, frente ao cadafalso.



Por Walner Silvestre