Retalhos do cotidiano

Nome:
Local: Bahia, Brazil

27 setembro, 2005

De volta para casa

Quando é possível reintegrar crianças que vivem em instituições ao seio familiar


Logomarca do ECA


Por Aline D'Eça

A pequena Luanna* tem 10 anos e há quatro está sob os cuidados de um abrigo em Salvador. É uma garota de aspecto frágil, olhar tênue e voz delicada. Recolhida num cantinho do quarto, que divide com mais sete crianças, quase não conversa. Ela veio de uma cidade do interior da qual não lembra o nome. Mas guarda viva na sua mente a lembrança da sua casa, do cômodo apertado que dividia com sua mãe e quatro irmãozinhos. Lembra que não ia para a escola e pouco comia, não tinha brinquedos nem roupas limpas como as do orfanato. Luanna foi trazida para a capital por uma senhora, de quem também não lembra o nome, e entregue à instituição onde agora vive. Certa feita uma psicóloga perguntou onde estava a sua família, quem eram seus pais, onde moravam e se ela gostaria de voltar para casa. A menina lacrimejou e disse:
“Ô minha tia, eu não sei porque me trouxeram para cá. Eu gostava tanto, mas tanto, da minha mãe... Você jura que vai me devolver pra ela?”


Instituições como a que abriga Luanna estão repletas de retalhos de histórias de vida como esta. Mas, o abrigamento em instituição é uma medida excepcional, e deveria ter caráter provisório, uma vez que a toda criança deve ser assegurado o direito à convivência familiar. A atribuição de promover este direito é, além das instituições de abrigo, do judiciário, ministério público, conselhos tutelares e do poder executivo federal, estadual e municipal
Orfanatos, internatos e abrigos, em um país que coloca à margem o futuro das crianças e adolescentes, constituem males necessários. A pobreza, porém, não justifica a transferência da criança carente para tais instituições, estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 23. Os números da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em 13 de abril, deste ano, comprovam que a realidade é diferente. Dos meninos e meninas abrigados nos estabelecimentos pesquisados, em todo o país, 86,7% têm família, e entre os motivos que os levaram a viver em instituições, a pobreza é o mais recorrente, com 24,1% dos casos.


O ECA estabelece que quando os pais ou responsáveis não conseguem cumprir com suas obrigações de proteção aos filhos por motivos de carência material, devem, obrigatoriamente, ser incluídos em programas oficiais de auxílio à família. Isso demonstra que as políticas de atenção a crianças e adolescentes precisam estar articuladas com ações que tenham em conta também suas famílias, o que poderia evitar ou reduzir a institucionalização.
A reintegração de crianças institucionalizadas à família biológica é o foco do projeto “Retorno ao Lar”, lançado em 2004 pelo Ministério Público estadual. A procuradora de Justiça Lícia de Oliveira explicou que “a idéia é preservar o núcleo familiar, por ser esse o espaço mais apropriado para o desenvolvimento de crianças e adolescentes”. Psicólogos, assistentes sociais e estagiários compõem a equipe que faz o trabalho de localização e observação social da família por um período de dois a três meses antes da tentativa de reintegração.


O projeto tem recebido apoio de clínicas-escola de universidades como a UFBA, UNIFACS e Ruy Barbosa que, por intermédio de estudantes de Psicologia, oferecem suporte às crianças e suas famílias. A psicóloga do “Retorno ao Lar”, Carla França, explica que a reintegração acontece de forma gradual, principalmente quando o vínculo com a família está rompido. “Encaramos que a criança é sujeito do próprio destino, por isso procuramos ouvi-la. Ela tem que ser protagonista e não espectadora do processo”, informa. “Eu sofri muito com minha mãe... Ela me batia... Mas ela não vai mais fazer isto, né?” Esta foi uma pergunta de outra garotinha que comoveu a psicóloga.

Publicado originalmente no site www.facom.ufba.br/cienciapress.

16 setembro, 2005

No meio do caminho tinha um homem


Diante de tantos passos apressados, sem nenhuma proteção sobre a calçada de pedras portuguesas, dormia um homem. Era sujo e magro. Apresentava alguns cabelos brancos e rugas denunciando a velhice do corpo. Talvez estivesse bêbado, mas isso pouco importou para uma senhora que passava pelo local às 7 horas da manhã, se dirigindo para uma padaria no bairro Nazaré, onde reside na capital baiana. Dona Maura, uma senhora de quase 80 anos, vestimentas simples, porém bem arrumada, parou diante daquele ser adormecido no chão, estendendo para ele um olhar triste e piedoso. Não conseguiu ter medo daquela criatura desafortunada. Ao contrário daqueles que só reparavam naquele homem infeliz a tempo de desviar dele como se desviasse de uma pedra ou de um buraco no caminho, Dona Maura esqueceu um pouco de si para pensar um pouco nele. Seus pensamentos, talvez, fossem uma análise sobre a trajetória de vida daquele senhor adormecido no chão, se ele possuía família ou sobre o abandono do Estado. Talvez apenas fizesse uma prece. Ninguém sabe, ninguém perguntou. Mas a partir do momento em que Dona Maura parou diante daquele ser, os transeuntes apressados deixaram de enxergá-lo como uma pedra para enxergá-lo como um homem, um infeliz, mas um homem.

09 setembro, 2005

Uma breve história sobre o Jornalismo Literário

Um bom artigo sobre como surgiu o Jornalismo Literário no Brasil e no mundo pode ser encontrado no site da Companhia da Escola (http://www.ciadaescola.com.br). Nele, o autor Lucas de Oliveira Fernandes mostra como o gênero é produzido, em que difere do jornalismo trivial e fala sobre o fascínio que este tipo de jornalismo pode provocar nos leitores. Grandes obras como Reds – dez dias que abalaram o mundo, de John Reed, Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Rota 66, do jornalista Caco Barcelos, são alguns exemplos de livros-reportagem citados pelo autor. Confira o artigo Jornalismo, Literatura e História: As Grandes Reportagens e boa leitura!

06 setembro, 2005

ALGUNS CONCEITOS

Jornalismo Literário
Modalidade de prática da reportagem de profundidade e do ensaio jornalístico utilizando recursos de observação e redação originários da ou inspirados pela literatura.Traços básicos: imersão do repórter na realidade, voz autoral, estilo, precisão de dados e informações, uso de símbolos (inclusive metáforas), digressão e humanização.


Jornalismo Literário Avançado
Proposta conceitual e metodológica de prática proativa do Jornalismo Literário, delineada por Edvaldo Pereira Lima, incorporando conhecimentos de vanguarda provenientes de vários campos, como a psicologia humanista, a física quântica, a Teoria Gaia, a Teoria Geral de Sistemas. Instrumentos: histórias de vida organizadas em torno da Jornada do Herói e o método Escrita Total.


Literatura da Realidade
Sinônimo de Jornalismo Literário, Literatura de Não-Ficção, Literatura Criativa de Não Ficção. Aplica-se à prática da narrativa sobre temas reais, empregando reportagem - o ato de relatar ocorrências sociais - sob um conceito espaço-temporal e de método mais amplo do que nos periódicos. Praticada por jornalistas, escritores, historiadores e cientistas sociais.


Livro-reportagem
Veículo jornalístico impresso não-periódico contendo matéria produzida em formato de reportagem, grande-reportagem ou ensaio. Caracteriza-se pela autoria e pela liberdade de pauta, captação, texto e edição com que os autores podem trabalhar. Entre os tipos de livros-reportagem mais comuns estão a reportagem biográfica, o livro-reportagem-denúncia e o livro-reportagem-história.


Narrativas de Transformação
Proposta de utilização proativa do Jornalismo Literário, do Jornalismo Literário Avançado e da Literatura da Realidade em processos narrativos visando contribuir para a transformação da sociedade através da ampliação da consciência das pessoas. Conceitos-chave: a co-criação da realidade, a Teoria dos Campos Morfogenéticos e o pensamento produtivo complexo.


Novo Jornalismo
Fase histórica e efervescente de renovação do JL nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, caracterizada pela introdução de novas técnicas narrativas (fluxo de consciência e ponto de vista autobiográfico), grande exposição pública e popularidade, reivindicação de qualidade equivalente à literatura. Abundantemente praticada em revistas de reportagem especializadas em JL, publicações alternativas, livros-reportagem e até mesmo em veículos da grande imprensa. Registra a ascensão para a fama de grandes mestres da narrativa do real, como Gay Talese e Tom Wolfe, assim como o salto para a produção de não-ficção de nomes consagrados da literatura, como Norman Mailer e Truman Capote.


Jornalismo Gonzo
Vertente peculiar do Novo Jornalismo, criada e popularizada por Hunter S. Thompson através de sua produção para a revista "Rolling Stone" e livros-reportagem. Consiste no envolvimento altamente pessoal e irreverente do repórter nos temas sobre os quais escreve, traduzido em forma narrativa excêntrica. Busca um modo de expressar a realidade muito apoiado na habilidade descritiva do autor. Praticada com destaque no Brasil atual por Arthur Veríssimo, na revista "Trip".

Histórias de Vida
Em jornalismo e Literatura da Realidade, este é um recurso de representação da realidade centrado em vidas de pessoas individuais ou grupos sociais. Surge como trabalho autobiográfico, de suporte de pesquisa ou de principal veio narrativo. Sob guarda-chuva conceitual amplo, num extremo abrange biografias e noutro, perfis. Em ciências sociais, Histórias de Vida é método de pesquisa.

Escrita Total
Método de produção de textos criativos, criado por Edvaldo Pereira Lima, tendo como parâmetro básico a Teoria dos Hemisférios Cerebrais, cuja comprovação garantiu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1981 ao neurologista Roger Sperry. Utilizado como ferramenta de sensibilização, pauta, observação e texto em Jornalismo Literário Avançado.

Jornada do Herói
Estrutura narrativa organizada numa combinação de estudos mitológicos de Joseph Campbell e da psicologia de Carl Gustav Jung, por Christopher Vogler, consultor de roteiros de cinema nos Estados Unidos. Utilizada por Spielberg e George Lucas. Adaptada para narrativas do real por Edvaldo Pereira Lima. Testada no ensino de jornalismo por Monica Martinez Luduvig em tese de doutorado na ECA/USP.

Publicado Originalmente em TextoVivo - Narrativas da Vida Real - www.textovivo.com.br

04 setembro, 2005



Jornalismo e Literatura: entre o amor e o ódio.
Por Aline D'Eça

Humanização da narrativa. O jornalismo literário (ou jornalismo narrativo) é uma forma de narrar os fatos de forma sensível e envolvente, que tem como ponto marcante a presença de pessoas e suas histórias de vida na narrativa, fugindo à estrutura mais rígida do jornalismo convencional, como o lide, sem contudo escapar à apuração ética e criteriosa das notícias. Para isso, o repórter costuma “mergulhar” na realidade que pretende descrever, captando-a com mais profundidade, e utilizar recursos da literatura (como observação, descrição, narração, estilo e uso de símbolos e metáforas) para tornar o seu texto mais atraente. O livro-reportagem, a biografia, a grande reportagem, o perfil e o documentário audiovisual são alguns gêneros do jornalismo literário.



No livro “Aos olhos da multidão”, o jornalista e escritor norte-americano Gay Talese (foto), autor de vários livros-reportagem, afirma que o incipiente jornalismo literário “não é ficção. É tão verídico como a mais exata reportagem, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência, ou que assuma o papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive. Procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e as reações dos outros a eles. Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando, revelando inclusive, sempre que possível, o que os indivíduos pensam nos momentos que descrevo”.



A fusão entre Jornalismo e Literatura, no entanto, não é novidade. No Brasil, as reportagens sobre Canudos do jornalista Euclides da Cunha (ilustração), publicadas no jornal Estado de S. Paulo, deram origem ao livro que se transformou num clássico da literatura brasileira : “Os sertões”. Mas muitos ainda vêem com estranheza essa união entre Jornalismo e Literatura. “O jornalismo sempre foi a prostituta, quando a esposa amada era a literatura”, explica o professor e jornalista Hélio Consolaro no artigo “Jornalismo e Literatura: dois irmãos que se rejeitam”. Por outro lado, existem os escritores que afirmam terem tido no Jornalismo uma escola para a literatura. Mas a polêmica é ampliada na década de 60 nos Estados Unidos. Estreitando as relações com a literatura, jornalistas como Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailler, entre outros, deixaram de lado os mitos da “neutralidade” e “objetividade” do jornalismo, e investiram em textos jornalísticos apresentados com características literárias, o que viria a ser chamado de New Journalism.
Polêmicas à parte, em meio a essa relação de amor e ódio, surge no Jornalismo um lugar para os bons contadores de histórias, para os jornalistas-escritores, que não se contentam com a limitação de tempo e de espaço, com dados e estatísticas, e se preocupam em fornecer ao cidadão o outro lado da notícia; justamente aquele onde ele pode se ver retratado.