Retalhos do cotidiano

Nome:
Local: Bahia, Brazil

19 dezembro, 2005

Amor e ódio nos tempos do cangaço

Dadá foi estuprada por Corisco antes de ter a primeira menstruação

Jane Fernandes

Ela não estava pronta, nem de corpo, nem de espírito, mas teve de se entregar ao desejo daquele que seria seu companheiro pelos próximos 12 anos. Assim, antes mesmo de ter a primeira menstruação, a menina conhecia o sexo por meio da força. "Foi uma coisa horrível, aquele homenzão em cima de mim, feito um animal", revelou no livro intitulado Dadá. Ao que parece ela não derramou uma lágrima. A reação à violência, porém, veio por meio de intensa hemorragia. Era como se toda a dor e angústia fossem vertidas em um choro de sangue. Tomada por calafrios, febre e dores por todo o corpo, a jovem teve de seguir viagem no dia seguinte e, antes mesmo de aprender a apertar o gatilho, fuzilava o responsável por tudo isso com o olhar. Deixada aos cuidados de uma tia de Corisco, ela sentia o ódio crescendo a cada vez que ele aparecia para visitá-la. Queria apenas voltar para a família e esquecer de tudo. Mal podia pensar que aquela aversão daria lugar a um amor tão profundo que desafiaria até mesmo a morte.
Confusa entre a mulher que começava a florescer contra sua vontade e a menina que preferia continuar sendo, ela foi tomada por um misto de vergonha e raiva, quando o seu futuro marido - eles foram os únicos a se casar oficialmente nos tempos de cangaço - a surpreendeu no quintal da casa brincando com bonecas. Ainda demoraria a se juntar ao bando, o que só foi possível depois da chegada de Maria Bonita, em 1931, e se confrontar com a dura realidade das fugas e batalhas. Das noites que para ele eram de prazer e para ela de quase morte nasceu o rebento capaz de unir os dois na alegria e no sofrimento. Josafá era o nome do menino. Seu sorriso aquecia o coração de ambos, mas depois do tiroteio acontecido em Tanque do Touro (Bahia) eles tiveram certeza de que o pequeno não poderia viver ali. "Sentia a maior dor do mundo de ter de me separar dos meus filhos. Corisco ficava caladão, não chorava, mas a minha impressão era de um choro inconsolável... Daí em diante, fui mudando", conta o livro onde o escritor José Umberto acrescenta poesia aos relatos de Dadá. A partir daquele dia, ela estaria ao seu lado de corpo e alma. (...)

Matéria publicada originalmente no caderno Correio Repórter, do jornal Correio da Bahia.

17 dezembro, 2005

Jornalismo, literatura e recursos da internet

O escritor e editor da revista literária Arraia PajéUrbe, Carlos Emílio Corrêa Lima, faz uma crítica à ausência de espaço para literatura nos jornais do Brasil e a sub-utlização dos recursos da internet nos jornais e revistas. Como exemplo de boa formatação da literatura, que consiste numa experiência lúdica possibilitada pela internet, ele sugere a revista Mnemozine. Confira o texto e a revista virtual!

A falta de literatura na imprensa de papel e a contra-revolução internáutica

Por Carlos Emílio Corrêa Lima, de Fortaleza

Por que os jornalões nacionais (era assim, de jornalões, que a turma da primeira fase do Pasquim, entre capixabas, mineiros, cariocas e baianos apelidava os grandes diários de papel impresso das velhas cidades-chave do país, Rio e São Paulo) não têm um caderno, pelo menos, semanal, de contos e ficção em geral misturado com páginas intensificadas de poesia? Não há espaço nenhum para a criatividade textual, para as emanações do imaginário. A notícia mosaica e remosaica a chamada realidade, tornando-a cada vez mais áspera. A literatura é posta às margens e seus agentes criadores transferiram-se para as catacumbas eletrônicas da internet, criando uma nova religião que hoje parece atormentar com sua incontrolável rebeldia, sua entusiasmada heresia, as acostumadas autoridades eclesiásticas da antiga hierarquia literária que ainda controla os pontos de poder da imprensa não-virtual dominante pois você quase não precisa de dinheiro nenhum para criar um "blog" ou para inserir uma inventiva e poderosa revista eletrônica de literatura na rede mundial. Percebemos alguns sinais de que os plenipotenciários que dão as cartas de legitimidade literária sentem-se cada vez mais incomodados pois não estão podendo - e não têm mesmo como - impedir a expansão do novo espaço que se abriu quase infinito. Estão atordoados. Todos os que foram banidos por eles da geração literária anterior (onde orgulhosamente eu me incluo) vão voltando a ter espaço numa região onde eles não podem dar pitacos hegemônicos. Eles agora não sabem muito bem mais o que fazer quando percebem o seu poder sacerdotal ameaçado. As vestais estão com muito calor, começam a sentir uma comichão no corpo inalcançável pelas mãos, tentam coçar-se mas é numa região inabordável. Começam pois a fazer gestos bizarros, movimentos meio cômicos. As vestais estão em chamas. (...)

Dezembro Literário

Dois Lançamentos Instigantes

O jornalista e escritor José Aloise Bahia mostra dois lançamentos instigantes deste mês.

Dezembro, mês de festas, presentes e livros. Dois escritores mineiros. Duas superfícies da literatura: a crônica e a poesia. Dois lançamentos instigantes: Retalhos do Mundo e Fratura Exposta. Edições com distinções e um apurado rigor estético nas confecções. Em cada uma a originalidade, o despertar, e palpitações incessantes/ritmadas nas vozes de Luís Giffoni e Jovino Machado. Autores premiados, talentosos e em destaque neste vasto mundo literário em terras brasileiras.




Retalhos do Mundo - Como reza Santo Agostinho: “O mundo é um livro, e quem não viaja lê apenas uma página”. O passar das páginas anda em léguas, milhas marítimas e faz um arco no ar: Himalaia, Andes, Sierra Nevada. Amazônia, Nepal, Patagônia, Ladakh. Taj Mahal, Teotihuacán, Pashupatinath. Denpasar, El Chaltén, Cidade do México. Retalhos do Mundo (Editora Pulsar, Belo Horizonte, 2005) leva-nos ao redor da Terra numa viagem em que culturas, história, geografia, gastronomia, pessoas e situações inusitadas se mesclam num texto leve e ágil.

Com bom humor e senso de observação, Luís Giffoni “eleva a narrativa brasileira a novos patamares de talento” (World Literature Today) e revisita lugares por onde andou, de grandes centros urbanos a cafundós em vários continentes. Conta-nos como é a falta de ar no Karakoran (Caxemira/China) acima de quatro mil metros de altitude e em Los Angeles (EUA) durante o smog. Testemunha a morte de escaladores no Annapurna (Himalaia). Quase morre durante uma nevasca perto do monte Whitney (Sierra Nevada/Califórnia/EUA). Mergulha na beleza do mar de Bali. Acompanha mateiros no miolo da Floresta Amazônica. Resgata tradições de astecas, indianos, norte-americanos, chilenos e argentinos. Mostra o fatal encontro com uma tribo desconhecida de índios. Atravessa os contrafortes das Torres del Paine (Chile), do monte Fitzroy (Patagônia Argentina) e do Cerro Torre (Patagônia Argentina). Compara comportamentos. Relembra livros e autores. Experimenta cardápios exóticos. Retalhos do Mundo revela a diversidade da Terra e do ser humano – e convida o leitor a participar de algumas aventuras.

Luís Giffoni nasceu em Baependi, MG. Reside em Belo Horizonte. Tem 16 livros publicados, dentre eles Infinito em Pó (Editora Pulsar, 2004), O Poeta e o Quasar (Editora Pulsar, 2003), A Verdade Tem Olhos Verdes (Editora Pulsar, 2001), Adágio Para o Silêncio (Editora Pulsar, 2000), A Árvore dos Ossos (Editora Pulsar, 1999). Recebeu premiações e indicações da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, Bienal Nestlé, Prêmio Minas de Cultura, Prêmio Nacional de Romances (e de Contos) Cidade de Belo Horizonte e Prêmio Jabuti.





Fratura exposta – “Este poema é um grito. Este poema é um desabafo. Este poema é uma constatação de impotência, um chamado, uma declaração de ódio e de amor. Este poema não mede conseqüências, este poema não espera condescendência, este poema não aceita condolências. Este poema é um pedido de socorro, uma mensagem numa garrafa lançada dentro de um bueiro, uma pichação debaixo de um pontilhão”. Eis parte da apresentação de Fratura Exposta (anomelivros, Belo Horizonte, 2005), feita por Joca Reiners Terron. Bate asas como um corvo na nova obra de Jovino Machado a epígrafe de Charles Baudelaire: “O prazer do amor gira em torno da certeza de fazer o mal”.

Um livro visceral, venenoso, vingativo e toda sorte maculada - uma coleção de exclamações, que sorve até a última gota metafórica disponível e inebriante para conseguir exprimir em palavras a sede enorme para estancar o sangue e a procura incessante do autor em seu diálogo com ela, e não ele, a Poesia em pessoa. Que nasce, “a poeta voava pelos telhados/ sonhando com a capital da solidão/ a primavera assassinava o inverno/ no céu surgia um pedaço de lua suja”. E, “morre na quarta-feira de cinzas/ a dançarina da ópera limpa as feridas do sambista/ que abraça a cuíca fatigada de chorar na pista/ inventando uma nova estação chamada melancolia”. Numa constatação - esperança das esperanças, sonhos de uma noite de verão -, o poeta dialogo em deslocamentos criativos com a sublime poesia expressionista alemã das décadas de 1910/20. Um belo livro, ferino, delirante: “é uma pancada na cabeça de um dinossauro/ é um arranhão distraído no breu das horas”.

A máxima do autor, “dinheiro ganho com a poesia se gasta na orgia”, ressoa em brados de Clarice e Hilda, em suas águas profundas. Sem falar na implacável Ana, a nebulosa Diadorim, Dolores, Nara, Elis. Redemoinho desassossegado, back bay - a música de Biglione, uma constatação de impotência, nas palavras de Joca Terron em sua síntese certeira, na análise de Luciana Tonelli. O poeta impaciente, elegante em suas roupas e cor predileta - o preto, em contraponto com a faca no fundo vermelho da capa do livro, misturam lâminas e cortes em ecos profundos e lateja em Fratura Exposta aquilo que é a sua força, o transtorno do revide que se deixa invadir, bagunçar e atordoar ossos explícitos pela procura fértil que no seu espanto é a sua assinatura.

Jovino Machado nasceu em Formiga, MG. Foi criado em Montes Claros e reside na Torre dos Azulejos em Belo Horizonte. Nos anos de 1990 estudou letras (UFMG). Atua como restaurateur. Publicou nove livros, entre eles Trint´anos Proustianos (Mazza Edições, 1995), Disco (Orobó Edições, 1998), Samba (Orobó Edições, 1999) e Balacobaco (Orobó Edições, 2002). Participações em Dimensão (Revista Internacional de Poesia, Uberaba, MG, 1998), A Poesia Mineira no Século XX (Imago, Rio de Janeiro, 1999), A Cigarra-Revista de Poesia (Santo André, SP, 2000), O Melhor da Poesia Brasileira – Minas Gerais (Joinville, SC, 2002) e na antologia poética O Achamento de Portugal (anomelivros, Belo Horizonte, MG, 2005). Menção honrosa na revista literária da UFMG (1991) e terceiro prêmio de Poesia Falada de Campos dos Goytacazes (RJ, 2002).


José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, ensaísta e pesquisador. Estudou Economia (UFMG). Pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004) e Em Linha direta (no prelo). josealoise@aol.com


Publicado originalmente em www.cronopios.com.br

12 dezembro, 2005

Sonhos melhores para as afro-descendentes

Por Aline D"Eça

Carolina tem um sonho: ser trançadeira. Tem 11 anos de idade e há quatro ajuda a mãe a vender cocadas para os turistas na Praça da Sé. Pequena e magrinha, carrega uma bacia de alumínio embalada por um filme plástico repleta de redondas cocadas coloridas. “Tem de coco, abacaxi, goiaba e amendoim”. Ao meio dia, o sol forte esquenta o alumínio e a faz suar, mas ela só pára para observar a decoração de Natal. Os olhos brilham, mas ela tem que vender as cocadas. Também deve estar atenta à irmã mais nova, Roberta, 8 anos, que vende fitinhas do Senhor do Bonfim.

As duas não freqüentam a escola há mais de um mês. “Esta época a gente tem que faltar mais. Desde de manhã a rua tá cheia de turista. Aí minha mãe, que é baiana de acarajé, traz a gente pra trabalhar aqui na praça o dia todo”. Carolina repete a 2ª série do ensino fundamental e explica que esse ano a greve prejudicou ainda mais os seus estudos. “Se não tivesse parado, estaria de férias e não perderia tanta aula”.



Foto: Aline D'Eça


Todo dia, antes de voltar para casa no final da tarde, enquanto a mãe desfaz a barraca de acarajé, Carolina gosta de observar o trabalho das trançadeiras. Quando fizer 15 anos, a mãe prometeu que a deixará trançar os cabelos dos turistas, mas enquanto isso treina com nas bonecas suas e das amiguinhas. “Vou ser trançadeira na praça e depois quero ter um salão aqui no Pelourinho”.

Como a maioria das mulheres que trabalham informalmente como vendedoras de fitinhas, trançadeiras ou vendedoras de acarajé no Centro Histórico de Salvador, Carolina é negra. E são elas que, mesmo numa cidade de população predominantemente afro-descendente, recebem os menores salários e são maioria entre os desempregados. Para minimizar esta desigualdade, foi aprovado no último dia 6, pela Câmara Municipal de Salvador, um projeto de lei que cria o Fundo Municipal para o Desenvolvimento Humano e Inclusão Educacional de Mulheres Afro-descendentes, resultado de um convênio entre o Ministério Público estadual e a Prefeitura de Salvador, que entrará em vigor apartir de janeiro de 2006, Ano da Promoção da Igualdade Racial em Salvador.


Destinando recursos para a educação desde a alfabetização até a 8ª série do ensino fundamental, num programa diferenciado, voltado para a cidadania, preparação de alto nível para o mercado de trabalho e reforço dos direitos constitucionais dessas mulheres, o Fundo receberá 2% da receita do Fundo Municipal de Educação, que deve ser usado para o financiamento e implementação de políticas, programas, projetos e ações que propiciem o acesso e a permanência nas escolas das mulheres afro-descendentes que se encontram em situação de vunerabilidade social. Se der certo e não for utilizado em outras finalidades, esse dinheiro possibilitará que crianças como Carolina e sua irmã Roberta possam sonhar com futuro profissional bem melhor que o das trançadeiras...

11 dezembro, 2005

GP de jornalismo

As inscrições para o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, 8ª edição, se encerram no próximo dia 31 de dezembro. Poderão ser inscritas matérias veiculadas em jornais, revistas e reportagens em programas jornalísticos de rádio e de TV, durante o período de 1º de janeiro de 2004 a 31 de dezembro de 2005, que abordem questões infanto-juvenis sob uma ótica mais ampla - a do desenvolvimento humano -, levando os temas relevantes às novas gerações ao centro das discussões para formar consciências e gerar mudanças.

O GP Ayrton Senna de Jornalismo é uma iniciativa do Instituto Ayrton Senna e tem o objetivo de reconhecer e estimular jornalistas e veículos de comunicação na produção de trabalhos jornalísticos sobre temas sociais de relevância para o desenvolvimento humano, desde que apontem os impactos diretos ou indiretos sobre a realidade de crianças e jovens.

As inscrições deverão ser feitas em ficha própria, disponível no site www.senna.org.br , e encaminhada à Comissão Organizadora do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, 8ª edição, sita à Rua Dr. Olavo Egídio, 287, 15º andar, CEP: 02037-000, São Paulo/SP.

09 novembro, 2005

São 1 real


Por Aline D'Eça

Embarcando no bairro da Pituba em um ônibus que faz a linha Duque de Caxias, numa tarde de segunda-feira quente e abafada, algo inédito aconteceu. Não, o veículo na quebrou, nem foi assaltado e nem sequer mudou seu rumo. Passando pela estação que liga a Rodoviária ao Iguatemi, entrou no ônibus, sério e pela porta dianteira, um vendedor de pé-de-moleque. Os passageiros menos atentos nem se deram conta, mas algo de diferente fazia o vendedor. Ele não era um portador de deficiência física pedindo "ajuda pelo amor de Deus", nem alguém menos favorecido suplicando com tom alto e desesperado, às vezes ameaçador, "desculpe atrapalhar a viagem de vocês, mas prefiro pedir do que roubar" ou então vendendo canetas cujas verbas serão revertidas para "um grupo de apoio a ex-drogados em recuperação".

A diferença estava no conteúdo do seu discurso. Não, ele não entoava em tom desesperado, para não dizer apocalíptico, versos de "salvação pela Bíblia". Sua intenção era apenas vender os doces que trazia num pequeno balde e dizia:
"Levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real". A maioria dos passageiros, calados e entretidos em seus universos individuais, nem sequer prestava a atenção, mas o jovem negro e que aparentava uns vinte e poucos anos de idade, que nem sequer disse seu nome, continuava dizendo "Levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real".

Ele não esperava quando uma passageira estendeu a mão para ele, sinalizando que nada queria comprar, mas que apenas desejava apertar sua mão. Meio assustado e sem entender o porquê daquele ato , ele retribuiu o cumprimento. "Parabéns pela concordância verbal", explicou a passageira. O jovem vendedor abriu um sorriso, agradeceu e continuou a entoar, agora com um tom de orgulho em sua voz, "levem deliciosos pés-de-moleque. Um é trinta, dois são cinqüenta, quatro são um real".

06 novembro, 2005

O papel da entrevista no JL

Em um artigo para o site português Bons Ventos, o professor de Jornalismo da Unesp/Bauru, Pedro Celso Campos, fala sobre "A Entrevista no Jornalismo Literário Avançado" no seu trabalho do Curso de Jornalismo Literário Avançado, do Programa de Pós-Graduação (Doutorado-Aluno Especial) em Jornalismo, da Escola de Comunicação e Artes-ECA - Universidade de São Paulo – USP

Confira:


A Entrevista no Jornalismo Literário Avançado

Quando a entrevista destina-se ao livro-reportagem, muitas destas técnicas aqui citadas podem ser úteis. Mas algumas são essenciais, destacando-se, como já foi dito, o aspecto da "imersão". Nas histórias de vida, antes de mais nada, é preciso conquistar a simpatia do entrevistado. E isto não se faz com meias-verdades, com mentiras, com falsa identidade, com câmeras ocultas ou com qualquer outro expediente escuso. Pelo contrário, para estabelecer uma boa interação com a fonte, o jornalista deve ser honesto, transparente, amigo, companheiro. Ninguém abre a caixa preta da vida, na sua intimidade mais crua e mais exposta, a uma pessoa não confiável, estranha, maquiavélica.

Por outro lado, o próprio jornalista deve se precaver para não se envolver em situações ilegais. Em depoimento à imprensa, no início deste ano, sobre seu mais recente livro a respeito do traficante Uê, Caco Barcelos contou que estabeleceu algumas normas, segundo as quais não tomaria conhecimento – durante as entrevistas - de fatos criminosos em andamento ou futuros, apenas de fatos passados. Já o cineasta Moreira Salles teve problemas com a lei porque sabia onde sua fonte se refugiara e continuou entrevistando-a para a produção de um filme sem avisar às autoridades. Também é necessário obter, logo de início, um documento assinado em que o entrevistado autoriza a divulgação de texto e imagem a seu respeito, o que poderá livrar o profissional de futuros e caros processos por uso indevido de imagem.

Uma vez conquistada a simpatia do entrevistado, é necessário passar a conviver com ele em seu próprio ambiente. Foi assim que Joseph Mitchell escreveu uma das mais bonitas reportagens, em meados do século XX, contando a história de um boêmio do Greenwich Village, em Nova York, o popular Joe Gould, que estaria escrevendo uma História Oral maior que a Bíblia. Mitchell sempre evitava os lugares-comuns do jornalismo: celebridades, poderosos, "olimpianos" (na expressão de Cremilda Medina). Seus personagens viviam à sombra, anônimos. Suas reportagens eram buriladas anos a fio e foram elas que melhor capturaram o espírito de Nova York entre as décadas de 30 e 60. O primeiro perfil de Joe Gould foi publicado na revista The New Yorker no final de 1942. Em 1964 Joseph Mitchell completaria o perfil de Joe Gould, sete anos após a morte de seu personagem, com o qual conviveu longamente nos bares da cidade até "percebê-lo" nos mínimos detalhes.

(...)

Publicado originalmente no site http://www.bonsventos.com

31 outubro, 2005

JL no Cinema


O clássico do Jornalismo Literário, o livro "A Sangue Frio", de Truman Capote, também pode ser conferido em sua versão para o cinema, do diretor Richard Brooks. Confira crítica publicada no site Erotikill (www.erotikill.com.br):


A Sangue Frio
In Cold Blood
Estados Unidos, 1967, 134 minutos

Diretor: Richard Brooks
Elenco: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Paul Stewart, Gerald S. Loughlin, Jeff Corey, John Gallaudet, James Flavin, John Collins, Charles McGraw, Will Geer, James Lantz, John McLiam

“Quem mataria quatro pessoas à sangue-frio por causa de um rádio, um binóculo e quarenta dólares?”, diz o agente Alvin Dewey, responsável pela investigação da odiosa e imoral chacina de toda uma família no interior desolado do estado do Kansas. Após um ano de perseguições são detidos dois ex-presidiários, ainda sob condicional, cujo julgamento e condenação se arrastou por longos anos até o enforcamento, na madrugada de 14 de abril de 1965.

Truman Capote (1924 – 1984), então com 33 anos, escritor de crônicas furibundas para o jornal The New Yorker, colheu relatos, reportagens em pequenos tablóides, entrevistas e acompanhou os dois assassinos responsáveis pela tragédia até a execução; o resultado foi o monumental híbrido jornalísto-literário In Cold Blood (A sangue Frio). Ao lado de outros arautos do jornalismo impressionista – ou new jounalism, como veio a serem conhecidas essas narrativas - (Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe), Capote perpetrou um estilo delicioso, sofisticado, um mix entre jornalismo e literatura que se consagra completamente no livro-reportagem propiciando a personalização de uma informação que se identifica com o "interesse humano” , e que alcança, por sua vez, um resultado próximo da crítica social e da opinião velada, ou seja, flagrantes e incidentes da vida ordinária.

Em 1967, Richard Brooks, notório e notável diretor das adaptações cinemáticas de Sweet Byrd of Youth (Doce pássaro da juventude, 1962) e Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de zinco quente, 1958), do dramaturgo Tenensee Williams, se aventura a penetrar nas mentes perturbadas dos dois assassinos, no poderoso In Cold Blood (A sangue frio, 1967), a homônima viagem pelo interior sombrio dos Estados Unidos, que narra, ao mesmo tempo com a distância e frieza de um ‘actors studio’ e a abordagem de dimensão humanitária e trágica do cinema de Dreyer, a tragédia familiar e pessoal dos envolvidos no massacre. Como personagens dostoievskianos – Brooks dirigiu uma adaptação satisfatória dos Irmãos Karamazov, em 1958 – não há explicações ou tentativas de se justificar os crimes; em nenhum momento o diretor se impõe um tom meramente moral ou mesmo vingativo, muito pelo contrário, há um angustiante clima de tragédia que envolve indiscriminadamente todos os personagens de maneira sinuosa, favorecido pelo preto e branco ‘chapado’ da fotografia.

O sufocante passeio edípico pelos tormentos pessoais de Perry Smith, confronta-se com a aparente felicidade pequeno-burguesa da família Clutter, resultando não em um confronto de dimensões sociais ou questionamentos sobre o lado dark da américa mas num legado de estranheza do comportamento humano. In Cold Blood refaz, em tom seco de road movie, os passos relatados pela polícia, o doloroso martírio dos membros da família Clutter, o périplo em fuga dos assassinos, a queda e o final dramático: “Gostaria de pedir perdão, mas para quem?”, murmura um atormentado Perry Smith, frente ao cadafalso.



Por Walner Silvestre